Não somos mais voluntários
Por que estamos deixando de usar uma palavra que tem sido utilizada como arma contra o interesse público

Durante a maior parte de nossa existência, nos autodenominamos voluntários. Parecia correto. Trabalhamos sem salários. Trabalhamos sem verbas. Trabalhamos sem uma entidade jurídica que arrecade doações em nosso nome. Por qualquer definição em linguagem simples, o termo “voluntário” se encaixava.
Não porque o trabalho tenha mudado — mas porque já não nos reconhecemos no ambiente em que essa palavra circula.
A palavra está quebrada
Nos últimos doze meses, documentamos duas organizações que se autodefinem publicamente como movidas por voluntários:
ICANN
Uma organização sem fins lucrativos do tipo 501(c)(3) que cobra taxas obrigatórias sobre cada nome de domínio registrado no mundo. A receita anual ultrapassa cinquenta milhões de dólares. Os membros do conselho, formalmente classificados como voluntários, recebem uma remuneração anual de cinco dígitos. A designação de “voluntário” é uma categoria fiscal, não uma postura ética.
xmrwallet.com
Uma carteira web do Monero que se autodenomina “voluntária”. Nossa investigação forense comprovou que ela vem extraindo chaves privadas de visualização dos usuários desde 2016, com mais de dois milhões de dólares em prejuízos confirmados envolvendo mais de quinze vítimas. A carta de despedida do operador está assinada como “O Criador. Não sou mais uma pessoa.” O argumento de que se tratava de um “voluntário” serviu como distanciamento legal de uma identidade comprometida, e não como serviço comunitário.
Entre esses dois pontos de referência, a palavra perdeu o sentido. De um lado: uma governança remunerada que se autodenomina voluntária. Do outro lado: um roubo que se autodenomina voluntário. Em algum ponto no meio, era suposto que nosso trabalho de verdade se situasse.
Ele não pode mais morar lá.
O que realmente somos
Somos uma organização independente de pesquisa contra o phishing, voltada para o interesse público. Trabalhamos voluntariamente. Esses são os termos que utilizaremos daqui em diante, em todos os relatórios, todas as divulgações, todos os documentos de parceria e todas as páginas deste site.
Essa distinção é importante: um voluntário doa seu tempo a uma organização. Um colaborador não remunerado conduz uma atividade que não está vinculada a nenhuma organização à qual possa doar seu tempo.
Não existe nenhuma Fundação PhishDestroy. Não existe nenhuma PhishDestroy Inc. Não há endereço para doações. Não há token. Não há tesouraria. Não há conselho administrativo. Não há salários — nem mesmo zero, porque zero ainda é um número que sugere a existência de uma folha de pagamento.
Existe apenas o trabalho, o arquivo público e as pessoas que o realizam.
O que muda
No site
- Todas as referências a “voluntários” estão sendo substituídas por “operadores” ou “pesquisadores”
- A página “Sobre” apresentará, em primeiro plano, a abordagem de que se trata de um operador não remunerado
- Os nomes dos autores serão atualizados de acordo com isso
Nos relatórios
- Os materiais de investigação serão assinados como “PhishDestroy — operação independente de pesquisa antiphishing”
- Os colaboradores individuais serão chamados de “operadores” ou “colaboradores”, e não de “voluntários”
Na comunicação externa
- Os documentos de parceria, as denúncias de abuso e a correspondência regulatória passarão a utilizar a nova terminologia
- Continuaremos a recusar doações, subsídios e qualquer forma de monetização
O que não muda
O fluxo de trabalho. A validação em sete etapas. O arquivo público de evidências verificável por hash. Nada disso dependia da palavra “voluntário”, e nada disso será afetado por sua ausência.
Uma observação para quem ainda usa a palavra “honestamente”
Essa afirmação não constitui um ataque ao voluntariado como prática. As pessoas que dedicam sinceramente seu tempo a causas legítimas são o tecido conjuntivo da sociedade civil. Não temos nada além de respeito por elas.
Nossa objeção é restrita e específica: a palavra foi adotada como camuflagem por organizações que não correspondem ao que ela implica. Quando um órgão regulador de cinquenta milhões de dólares e uma operação de roubo de credenciais que já dura uma década se autodenominam “voluntários”, a palavra não protege mais nada, exceto as entidades que se escondem por trás dela.
Estamos saindo de trás disso.
Daqui para frente
Se vocês já se referiram a nós como voluntários no passado — na imprensa, em citações acadêmicas, na documentação de parceiros —, não estamos pedindo que alterem nada retroativamente. Estamos simplesmente informando quem somos agora.
Independentes. De interesse público. Não remunerados. Operadores.
— PhishDestroy — Uma iniciativa independente de pesquisa contra o phishing